sexta-feira, setembro 24, 2004

obras

"Por motivo de obras no cérebro, vou fechar durante uns tempos. Preciso duma nova concepção do mundo. Não se trata apenas da fachada. São as canalizações, as paredes do quarto, os tectos. Quem devia fazer as obras era o senhorio, mas ele quer lá saber do meu cérebro, de que ele seja caro, de que os pensamentos se tenham de ouvir todos uns aos outros devido à exiguidade do espaço e de que a concepção do mundo não funcione porque tem a bomba avariada. Ainda por cima, cá na terra não há ninguém que a arranje. Tem de vir um homem cá de fora. Um homem cá da terra, mas que vive fora, e que é técnico de avarias de bombas de concepção do mundo. Ele não sabe ainda se é preciso mudar só a bomba ou se é preciso substituir toda a concepção do mundo, de modo a que fique como nova ou, no pior dos casos, uma concepção do mundo que fique como nova depois de arranjada. gosto de obras. Se pudesse todos os dias tinha obras em casa. É uma forma de ter operários, de nos sentirmos bem com eles, de a gente se abrir às reparações e descansar. Não gosto é do barulho das obras e por isso preveni os predeiros que nao fizessem barulho com berbequins durante a construção, mesmo que a sua única obra viesse a ser o silêncio absoluto, o silêncio desprovido de quaisquer impactos ou perfurações. sugeri-lhes aliás que não fizessem várias obras, mas que fizessem uma única obra, como aquela que há entre o céu e a terra, um horizonte, uma linha inacessível que dispensasse qualquer inauguração"

os pés frios dentro da cabeça, António Pocinho
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